O ecossistema de incentivos fiscais no Brasil fechou 2025 no maior patamar da história. Os números são expressivos e contam uma história de crescimento real, expansão geográfica e também de riscos que o setor precisa enfrentar nos próximos anos.
Neste texto, a gente reúne os principais dados do Panorama dos Incentivos Fiscais 2026, publicado pela Simbi a partir de levantamento inédito de fontes federais, estaduais e municipais, e explica o que eles significam tanto para quem investe quanto para quem capta.
O número que resume 2025: R$ 7,5 bilhões
Em 2025, cerca de R$ 7,5 bilhões foram direcionados a projetos sociais, culturais, esportivos, ambientais e de saúde via leis de incentivo fiscais no Brasil. É o maior volume da série histórica acompanhada pela Simbi.
Deste volume, R$ 6,5 bilhões foram movimentados apenas pelas leis federais e fundos sociais. Esse resultado foi construído por mais de 34 mil investidores — entre pessoas físicas e jurídicas — que escolheram destinar parte do imposto de renda devido para aproximadamente 8,4 mil projetos em todo o país. Tanto o volume total quanto o número de projetos ativos representam os maiores patamares já registrados.
Para ter dimensão do que esse crescimento significa em termos reais: descontada a inflação, o volume investido via incentivos fiscais federais cresceu 89% entre 2020 e 2025. Isso quer dizer que o ecossistema não apenas cresceu nominalmente: ele expandiu de verdade, em tamanho e maturidade.
Além disso, o volume direcionado em 2025 superou o próprio teto de gastos tributários previsto pelo governo federal na Lei Orçamentária Anual, estimado em R$ 5,79 bilhões. Na prática, o sistema captou cerca de R$ 200 milhões além do que o governo havia estimado.
Além do federal: o que estados e municípios movimentaram
Entre 2020 e 2025, as leis subnacionais (estaduais e municipais) mobilizaram aproximadamente R$ 4,3 bilhões em valores nominais. Só em 2025, esse volume chegou a R$ 960 milhões — recursos que financiaram projetos em territórios que as leis federais muitas vezes não alcançam.
Desse total subnacional, 87% vieram de renúncias via ICMS estadual e 13% de mecanismos municipais baseados em ISS e IPTU. São mecanismos que cumprem um papel complementar ao federal, pois chegam mais perto das comunidades, sustentando iniciativas locais e fortalecendo cadeias culturais e esportivas em regiões com menos visibilidade no ecossistema nacional.
O que cada lei movimentou em 2025
A Lei Rouanet segue sendo o principal eixo do ecossistema. Em 2025, a captação atingiu R$ 3,41 bilhões — o maior valor da série histórica — com avanço nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Pela primeira vez desde a criação da lei, projetos captaram recursos em todos os 27 estados do país, iniciando um caminho real de desconcentração geográfica.
Além dela, a Lei de Incentivo ao Esporte superou R$ 1.3 bilhão captado pela primeira vez. A importância desse mecanismo é reforçada pela publicação da LC 222/2025, que tornou a lei permanente e ampliou o teto de dedução para até 4% do IRPJ para projetos de inclusão social — o que tende a ampliar ainda mais o volume nos próximos anos.
Já a Lei de Incentivo à Reciclagem deu seus primeiros passos operacionais em 2025. Com participação ainda residual no total, ela representa a incorporação da agenda ambiental ao portfólio federal de incentivos.

O que esses números representam além do dinheiro
Os R$ 7,5 bilhões não ficam parados. Eles se transformam em projetos, empregos, renda e arrecadação para o próprio Estado.
Um estudo da FGV EAESP, encomendado pelo Ministério da Cultura especificamente sobre a Lei Rouanet, calculou que cada R$ 1,00 gasto na execução dos projetos culturais movimentou R$ 7,59 na economia brasileira — o chamado Índice de Alavancagem Econômica. O mesmo estudo apurou que os projetos financiados pela Rouanet geraram a manutenção ou criação de mais de 228 mil postos de trabalho e R$ 3,9 bilhões em tributos arrecadados em todo o país.
Isso quer dizer que a renúncia fiscal do Estado não é uma perda, mas um investimento com retorno econômico e social mensurável.
O que está em risco: R$ 1,6 bilhão sob ameaça
Com um ecossistema no maior patamar histórico, faz sentido olhar também para o que pode comprometer esse resultado nos próximos anos.
O Panorama dos Incentivos Fiscais 2026 identifica dois vetores de risco que, combinados, podem representar uma perda de até R$ 1,6 bilhão por ano no volume de recursos mobilizados — cerca de 20% do total atual.
O primeiro é a Reforma Tributária. Com a criação do IBS em substituição ao ICMS e ao ISS — tributos sobre os quais todo o sistema subnacional foi construído —, os mecanismos estaduais e municipais de incentivo tendem a ser extintos progressivamente até 2033. Só em 2025, esses mecanismos movimentaram R$ 960 milhões. Ou seja, sem substitutos definidos, essa fonte de financiamento vai se reduzindo ao longo da transição.
O segundo é a LC 224/2025, que implementou uma redução de 10% sobre os tetos de dedução dos incentivos fiscais federais. No cenário mais abrangente de aplicação — caso os debates interpretativos se resolvam de forma desfavorável ao setor —, o impacto seria de aproximadamente R$ 650 milhões por ano sobre os R$ 6,5 bilhões em leis federais.
Esses dois vetores somados chegam a R$ 1,6 bilhão. Entretanto, vale dizer que existem proteções jurídicas em construção. É o caso do Parecer 69/2026 da AGU para a Rouanet e o PLP 11/2026, que aguarda votação na Câmara dos Deputados e pode blindar todos os incentivos do corte da LC 224.
Como esses dados foram levantados
O Panorama dos Incentivos Fiscais 2026 é o maior levantamento já realizado sobre o ecossistema de incentivos fiscais no Brasil. Para produzi-lo, a Simbi analisou 1.457 publicações em Diários Oficiais, monitorou 38 portais de transparência e acionou 360 pedidos via Lei de Acesso à Informação (LAI) quando os dados não estavam disponíveis nas fontes primárias.
O estudo integrou em uma única análise as dimensões federal, estadual e municipal do ecossistema, com dados do período 2020–2025. O Panorama foi desenvolvido em parceria com o escritório Mattos Filho, para as análises jurídicas e regulatórias, e com a FGV EAESP, para os estudos de impacto econômico.
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